Limonada

2004-03-24


Tercetos de Outono

A Outonal manhã, trazendo fria,
um já desperto e novo dia,
como em tantas manhãs assim.

E esse céu cinzento me calaria,
como o frio cortante congelaria,
meu coração no outono, enfim.

Uma manhã triste, alguém diria,
Sem notar que essa melancolia
do outono, foi feita para mim.


2004-03-19


Seis e meia
Eram seis e meia, o relógio estava sempre certo.
O relógio era a única coisa que havia ficado na sala. Depois da morte de sua mãe, tirara todo os móveis, a tv, a velha vitrola e até os poucos quadros de seu pai e dele que estavam na parede.
Mas aquele relógio não podia tirar. Sua mãe não tirara dali quando seu pai resolveu partir. De sua juventude a lembrança que mais marcava era a de sua mãe olhando para o relógio, esperando a volta do marido.
A mãe gostava de dizer o quanto o velho pai gostava de relógios, e sempre contava a história de como o pai ganhara esse relógio do amigo suíço, que ele nunca atrasava, e já estava lá havia tantos anos.
Passara um mês do enterro, e somente nessa semana teve coragem de entrar na casa da mãe. Pedira férias no trabalho. Dividiu os bens de valor com parentes, deu os móveis mais velhos ao moço da carroça (que já frequentava a rua havia muitos anos), tirou as cortinas, guardou as fotos sem verdadeiramente olhá-las (evitando o sentimentalismo) mas a pior parte foi lavar o chão e as paredes, remover de cada azulejo o cheiro do passado, a presença tão forte de sua mãe que permeava cada cômodo.
Fora mesmo uma semana longa, e agora estava ali, olhando o velho relógio do pai na parede, tic-tac, não parou, e não havia atrasado, pontual e cruel.
Lembrou do próprio tempo, dos seus 35 anos, do emprego monótono, de como sua mãe fazia falta. Pensou em alcançar o relógio e jogá-lo na parede, em milhares de estilhaços, uma vingança do pai e do passado, uma vingança contra o próprio tempo que havia sido tão cruel com a mãe nesses 25 anos. Chegou a titubear, mas sossegou ali no chão sentado, olhando o relógio, tic-tac.
Já não sabia dizer quanto tempo estava sentado ali, mas não sentia mais suas pernas, que cruzadas adormeceram, pensou em levantar e tirar o relógio da parede, pôr naquela última caixa e partir, quando de súbito o relógio parou, simplesmente assim tic...
Marcava seis e meia, e já não marcaria mais nenhuma outra hora. Sentiu como se o mundo começasse a andar de novo, como se tudo fizesse algum estranho sentido. Lembrou-se da mãe, tão inocente e feliz. E sorriu. Trancou a porta e deixou na parede o velho relógio, que já não marcava mais o tempo passando, e sim o tempo passado.


2004-03-15


Equação da elasticidade do tempo
Todo mundo sabe que o tempo e o espaço são curvos.
Todo mundo sabe que o tempo comporta-se de maneira desigual nos diversos momentos de nossos dias, parecendo ser sempre curto para diversão e longo para o trabalho.
Com a finalidade de explicar esse estranho fenômeno, desenvolvi uma técnica científica para calcular como a "curva" afeta seu tempo, distorcendo a realidade e alongando ou encurtando as suas horas.

Em primeiro lugar estabeleceremos que nosso fundo de escala é o tempo absoluto de uma hora, 60 minutos.
Consideremos, as variáveis.
1. Temos d, como a variável que define o coeficiente de diversão do momento. Utilizaremos uma escala simples de 1 a 16, com variação de um ponto, quanto maior a diversão, maior o valor. Exemplificando digamos que "16" seria algo como "ahhhhhhhhhh!. Caralho que divertido", e "1" seria algo como "OK, eu tava até acostumando com a coroa de espinhos e a cruz, mas pregar as mãos é sacanagem".
2. Consideremos hs como o delta de horas dormidas na noite anterior (variando de 1 a 24 em meio ponto).
3. Temos a constante K de valor 60 que representa em minutos o valor absoluto de uma hora.
4. Temos a variável x que representa em unidades a quantidade de doses de bebida (alcóolica) consumida. Considerando que a primeira dose já causa efeito na equação, iremos sempre utilizar essa variável acrescida de 1, o que a fará funcionar como maximizadora, seja da diversão (nos casos em que os valores forem menores que 60) ou do tédio (valores maiores que 60). Se utilizarmos essa variável tendendo ao limite, chegaremos ao coma alcóolico, situação que anula o tempo relativo.

O resultado será expresso em minutos, representando quantos "minutos relativos" demora a sua hora com 60 "minutos absolutos" para passar. A equação é:
( K * hs / d ) / x.
Efetuem experimentos práticos, aplicando a regra aos dias, e estará comprovada minha teoria, uma hora de diversão pode chegar a durar 5 minutos relativos, enquanto uma hora de trabalho facilmente chega à 120 minutos relativos.


2004-03-09


Carta a um Amigo
Um dia é só um dia,
Eu as vezes eu queria entender,
como tantas coisas aconteceram
e quais os desígnios de tudo isso.

O emaranhado de dias
que já me fazem confundir os fatos,
Não apagam a vontade que tenho
De que tudo fosse mais simples.

Existem coisas que dividimos,
e montanhas que movemos sozinhos,
eu entendo que seja duro
mas hoje não posso dizer mais que isso.

Eu me pergunto do tempo,
Aquele mesmo que disseram que tudo curava.
Pois se não é ele mesmo que transforma
meu amanhã em ontem.

Esse tempo, como todo o tempo,
é tempo de viver, pois no fim das contas
Temos sempre que continuar,
e sempre vamos pra frente, não importa a direção.


2004-03-08


A conspiração do preconceito
Uma das coisas que mais me trouxe inimigos em minha vida, é meu ponto de vista sobre o dia internacional das mulheres. Se eu fosse um cara esperto, já teria guardado ele pra mim há muito tempo, e evitaria manifestá-lo em público.
Mas a verdade, é que sou um idealista, um pequeno sonhador que sempre quis mudar o mundo. Apesar de estar bem escolado sobre as agruras que este tipo de comportamento pode trazer, é difícil manter-me calado assistindo de camarote absurdos cotidianos, como o espetáculo da hipocrisia e do preconceito que ocorre no "Dia internacional da mulher".
Portanto, mulheres que não estejam dispostas a ler e discutir uma opinião um tanto radical sobre o assunto, não leiam o texto daqui para baixo.

Bom tudo começa no motivo de comemoração do dito dia. Se eu perguntar para dez mulheres (eu já fiz isso outras vezes para comprovar), uma saberá porque a data 8 de março e outra dirá que "Já ouviu essa história, mas não lembra" (se perguntar a dez homens, onze não sabem).
Numa época em que as leis trabalhistas ainda não existiam, e a revolução industrial obrigava pessoas a trabalharem em condições sub-humanas em fábricas por salários miseráveis, 129 tecelãs da Fábrica de Tecidos Cotton, em Nova Iorque, cruzaram os braços e paralisaram os trabalhos pelo direito a uma jornada de 10 horas, na primeira greve norte-americana conduzida unicamente por mulheres. Violentamente reprimidas pela polícia, as operárias, acuadas, refugiaram-se nas dependências da fábrica. No dia 8 de março de 1857, os patrões e a polícia trancaram as portas da fábrica e atearam fogo. Asfixiadas, dentro de um local em chamas, as tecelãs morreram carbonizadas.
Durante a II Conferência Internacional de Mulheres, realizada em 1910 na Dinamarca, a famosa ativista pelos direitos femininos, Clara Zetkin, propôs que o 8 de março fosse declarado como o Dia Internacional da Mulher, homenageando as tecelãs de Nova Iorque.
Pois bem, Digam-me, quantos aqui lembraram das tecelãs ?
Qual é a luta da mulher de hoje ? Qual o direito que não as assiste ? Qual a condição que lhes falta para a igualdade ? Por quais motivos as mulheres queimariam sutiãs em praça pública hoje ?
Uma coisa é celebrar uma luta que rendeu frutos que já podem ser colhidos hoje, com fartura. Outra é falar em uma "luta contra preconceitos" de gerações que não sabem sequer discernir o que é preconceito.
Pois eu digo onde está o preconceito. O preconceito está dos homens para as mulheres, na boca dos mesmos homens que te deram flores e bombons em 8 de março, e conversavam com os amigos "Olha que gostosa" quando a garota do segundo andar passou no corredor. Dos homens para as mulheres, que celebram com elas o dia de hoje, como se fosse o único direito delas, e no resto do ano a falta de respeito com as colegas de trabalho, a falta de caráter e as mentiras para as esposas e o tratamento de objeto dado às garotas fosse direito deles.
O preconceito nasce com as mulheres mesmo, que adotam comportamentos chulos e aceitam serem comparadas com cervejas no comercial da TV. Mulheres que perseguem a moda que dita a TV, fazendo regimes ridículos para ficarem "secas" como a modelo, mulheres que aumentam o número de cirurgias plásticas desnecessárias apenas para satisfazerem seu ego ao ouvirem os cochichos no corredor, mulheres que assumem o pior do comportamento machista padrão e adotam a falta de caráter justificando-a com baboseiras como "Nenhum homem merece mulher fiel".
A verdade é que tudo isso começa, porque as mulheres de hoje se acomodaram, e permitem os abusos de que reclamam tanto.
Eu, enquanto homem, celebro as diferenças. Admiro o comportamento feminino como é, sem que ele deva ser igualado ao masculino. Os homens em sua maioria vivem na idade das cavernas (eu sei porque sou um), eles queriam ainda usar tacapes e arrastar as garotas pelos cabelos. As pessoas não entendem que a mulher não tem que igualar esse comportamento do homem, mas sim impor um comportamento social que traga aos homens a necessidade de sensibilizarem-se um pouco, de serem mais honestos com o mundo e com eles mesmos, que quebrem as barreiras e preconceitos que os homens impõem a eles mesmos.
Enquanto as mulheres forem machistas, dificilmente os homens deixarão de ser.


2004-03-03


Novamente vou colocar um post aqui, que foi escrito para "O TAO DO BLOG" (link ali na direita), onde discuto filosofia e física quântica com amigos, porém, por absoluta falta de tempo não tenho escrito aqui, então esse post é apenas para lembrar que ainda estou vivo.

TAO E DESEJO.

A Luz nos permite ver,
Mas luz demais pode nos cegar.
Assim como sons altos demais
podem nos ensurdecer.
E sabores muito fortes podem
amortecer nossa língua, eliminando o paladar.

Um copo é mais fácil de segurar,
quando não está completamente cheio.
Uma lâmina possui melhor corte,
quando seu fio respeita o limite do material.
Tesouros são mais fáceis de guardar,
Quando os possuímos de forma moderada.

Tudo que se possue em excesso, tem um efeito contrário ao desejado.
Portanto é sábio obter e conquistar através do merecimento, porém desejar além do necessário, pode iniciar me nós uma busca incessante por algo que já possuímos.
Aquele que possui pouco, ainda tem muito o que conquitar. Aquele que possui tudo, pode apenas perder.

Essa é a natureza do TAO. Viver sem desejar, e obter somente o que lhe é necessário.


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