Posted
2/10/2005 09:49:39 AM
by GUILHERME PAES
Flores na quarta feira de cinzas
Ele sempre levava flores para ela às quartas.
Passava em uma banca de flores vizinha do pequeno mercado, quando ela estava fechada corria três quadras até a floricultura da rua da feira, que era mais longe e mais cara (além das flores nem sempre estarem com um aquela aparência de frescor), mas pelo menos esta fechava mais tarde, o que lhe permitia conseguir comprar as flores mesmo quando tinha que trabalhar até mais tarde.
Nesses dias, o caminho do metrô até sua casa era sempre perfumado, e isso o agradava bastante. O aroma das flores o fazia sorrir na caminhada.
Suas favoritas eram as rosas amarelas, com o aroma mais acre do que o doce das rosas vermelhas. Mas levava toda sorte de flores sempre alternando-as, margaridas e gérberas, tulipas e crisântemos, até begônias ele já levara. Os tantos anos através dos quais ele cultivou esse hábito lhe deram tempo para experimentar todo tipo de aroma e colorido nos vasos de casa.
Ele sempre brincava com clichês romanticos, foi assim que a conquistou naquela quarta feira de cinzas, num vagão meio vazio do metrô, com pessoas de meio-expediente, carregando seu meio-mau-humor, esperando o tempo passar entre as estações.
Ela aparentava estar maltratada e triste naquele fim de tarde, uma flor solitária, com uma beleza descuidada e fascinante.E foram essas palavras que a conquistaram.
Viveram anos felizes e coloridos, anos de aromas, passagens tão sutis e outras mais exageradas. Foi uma vida repleta de cores.
Foi numa quarta feira de cinzas, também, que ela o deixou. A doença que a levou, a fez definhar por algum tempo, sem nunca tomar as cores ou o brilho do seu sorriso.
Ela adorava as flores das quartas feiras, e ele continuou trazendo as flores para casa, nos momentos de alegria, e nos dias de dor. Mesmo quando a vida parecia pregar-lhes o mais sórdido embuste, ele trazia flores, e eles celebravam aquele pequeno colorido no vaso da sala.
Já havia algum tempo que ele não levava flores nas quartas feiras. Parecia não fazer sentido manter o ritual, afinal ela não estava mais lá para agradecer de forma doce e apaixonante. Mas era quarta feira de cinzas novamente, e ele passou na floricultura da rua da feira e comprou tantas flores quanto podia carregar, de todos os tipos de cores e aromas. O caminho de casa foi uma profusão de sentimentos, coisas que ele guardou sozinho, sofrimentos, dores e aquele amor que já não tinha mais sentido. Tudo explodindo em um ramalhete confuso de flores que choravam com ele, na garoa, no caminho até sua casa.
Entrou e arranjou elas todas, cuidadosamente, pela sala. Criou hamonia com as cores e pôde sentir o aroma de cada uma delas. Sentou-se no sofá e chorou até de manhã.
E nunca mais ele comprou flores.