Limonada

2007-02-28


28 de fevereiro, um conto atirado pela janela
Ele arrancou mais uma folha do calendário.
Desde que mudara daquela casa, decidiu se livrar-se de tudo o que tinha ali.
Doou os armários do quarto, desmontou a estante da sala, deixou lá os armários da cozinha.
Perguntaram-lhe sobre como guardaria suas coisas e ele teve um arroubo, como se alguém tivesse sussurrado em seus ouvidos um segredo que mudaria sua vida, naquele exato instante.
Jogou fora roupas e panelas, fotos e sapatos, frascos de detergente e esponjas de aço, aquele tabuleiro de damas há muito escondido do qual faltavam peças, suas revistas com notícias velhas e nunca lidas.
E de repente tornou-se um sentimento compulsivo, irrefreável, era impossível parar agora.
Não desmontou o chuveiro, não quis levar o box Blindex, deixou a tampa do vaso e o espelho, abriu o gabinete da pia e jogou fora tudo que não fosse sua escova de dentes, o aparelho de barba, uma pasta e o sabonete. Nem o remédio para dores de cabeça quis levar.
Sua cabeça girava e freneticamente e, como se estivesse fugindo, ele começou a livrar-se de tudo.
Jogou coisas menores no lixo, sem receio. O revisteiro, os quadros decorativos da cozinha, alguns poucos porta-retratos ainda com as fotos, copos, canecas e até aquele boneco do Speed Racer que ele comprou e pagou tão caro.
Pegou um conjunto de talheres na cozinha e fechou a gaveta com o resto dentro. Decidiu que a geladeira e o fogão não iriam também, pediu aos rapazes da mudança que os deixassem ali mesmo, o novo dono da casa que os utilizasse, ou se desfizesse deles.
Pegou o bolo de correspondências da caixa de correio, fechada há uma semana, e jogou fora sem olhar o remetente.
Era tanta coisa pra pensar...Pegou um lençol, mas apenas um, uma fronha e seu travesseiro. Sequer quis levar um edredon.
Abriu uma mala de viagem pequena, e decidiu que levaria o que coubesse ali. Algumas mudas de roupa, um par de sapatos e um chinelo, os pertences arrebanhados no banheiro e os talheres, a roupa de cama e a toalha cobrindo tudo. Fechou a mala.
Foi ao armário e vestiu sua calça Jeans preferida, meio surrada, uma camisa nova que havia ganho de alguém no natal, seu melhor tênis. E foi saindo da casa, como quem parte para uma viagem curta, mesmo sabendo que não voltaria nunca para buscar o que deixava ali, tudo o que ele sempre achou que lhe pertencia.
E de repente percebeu que eram suas coisas que lhe possuiam. A casa, os talheres, os móveis...Eles eram os donos. Ele era um fantoche da vida que construiu ali dentro, e se levasse consigo tudo o que lhe prendia à casa, não estaria realmente mudando.
Chegou à porta da sala, olhou para dentro pela ultima vez e viu na parede da cozinha, lá no fundo, um calendário. um daqueles calendários com fotos de flores e frases bregas de auto-ajuda, um calendário que havia ganho de sua falecida avó há uns três anos atrás, e decidiu levá-lo. Não levaria a casa, nem quem ele era lá dentro, mas levaria o tempo consigo, o tempo que ainda possuia num velho calendário que contava os dias de acordo com a boa vontade de quem virava as folhas.
No novo apartamento, não havia colocado nada ainda. Dormia num colchão novo, no chão. Não cozinhava, não via TV. Praticamente não havia mudado para o lugar ainda...tres semanas passadas e ele ainda não morava ali.
Apenas o calendário na parede da cozinha. Virava todos os dias pela manhã a folhinha, e lia despropositadamente a frase ali escrita.
Não lembrava porque, mas um dia, decidiu arrancar todas as folhas do passado e do futuro, deixou somente aquele mes de fevereiro, que já ia lá pelo dia 15. Passou a arrancar as folhas então, dia após dia.
E hoje arrancou dia 28. Restara a folha do dia 29, seria a última pensou. Mas não...era um calendário antigo, e esse não era um ano bissexto. Acabara a utilidade do único pertence que trouxera consigo. O último símbolo, que ficava como um pilar na parede, contando o tempo do seu passado.
Dia 29 não chegaria.
Pegou o calendário, olhou a folha em suas mãos, e jogou ambos pela janela do sexto andar, assistindo sua queda lenta, deixando-os varridos pelo vento caírem na piscina do prédio.
E foi desesperador pensar que não possuía mais nada, que não tinha com o que se distrair, que se desfez de seu passado, de suas mágoas e felicidades de outrora.
E sentiu-se, assustadoramente, livre...


2007-02-26


Eu vou tentar...
Eu já escrevi tanta coisa nesse espaço...e já passei temporadas em silêncio também.
Eu comecei a escrever em blogs em 1999...já tive 8 blogs diferentes (cheguei a ter quatro ao mesmo tempo)...Conheci bons amigos por causa de blogs, na época do BUM dos blogs...
Mas enfim, escrevi sempre pela necessidade de escrever, publicar, falar...afinal...ninguém cansa de ouvir o som da própria voz...
De repente, nessa entresafra de quase dois anos, me encontro inspirado a escrever de novo, ao ver alguns amigos do peito escrevendo em espaços deles, pequenos blogs por aí, de pessoas que eu realmente gosto de saber que estão escrevendo...
Então vamos brincar de bater a poeira do tapete...atualizei o template, tirei os velhos penduricalhos, atualizei os links ali do lado pra deixar só os amigos que ainda leio (ou que ainda têm blog), ajustei minhas informações pessoais pra quem eu sou agora, e vou voltar a escrever, pois pra mim sempre foi uma necessidade...
Obrigado aos que, por razões pessoais, escrevem em seus mundinhos particulares, e me fizeram sentir essa gana por voltar a publicar, mesmo que absolutamente sem querer...


Cosumi(n)do
Sinto o dia voraz logo às oito da manhã...
Tempo abafado, céu encoberto, e eu sei que será uma dia quente.
Preparo meu espírito pra mais uma mordida, dessas que cada dia dá na gente.
Preparo-me pra ser consumido, mais um pouco...
O cotidiano sempre faminto, consumindo nossa alma, pra criar fumaça, a mesma que deixa
o dia nublado, que faz o caminho mais complicado e o dia menos esclarecido.
Estou pronto, pode vir, mostro os dentes, afio as garas e tento parecer caçador e não caça.
É inútil, eu sei, mas tento me defender, tento consumir o dia antes que ele me consuma...
Mas o ritmo está me cansando, de verdade...
Já começa a me faltar disposição...


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