Limonada

2007-12-05


Do que é ser Corinthiano
Meu pai tem uma camisa da sorte.
Ele assistiu o Corinthians em muitas oportunidades na vida (lá se vão seus quase 60 anos), Acompanhou os 23 anos de fila sem perder a fé, ou a paixão.
Ele estava no estádio na final de 74 quando o time perdeu para o Palmeiras, mesmo tendo Rivelino no auge da carreira como comandante em campo do elenco.
Ele também estava no estádio em 77, no gol da Basílio, o gol mais corinthiano de todos os tempos. Ele comprou uma camisa nova do clube para aquele jogo, e uma bandeira nova também.
Meu pai é um cara racional, e que se emociona só quando precisa. Mas o Corinthians faz ele ser até supersticioso...E eu acho que herdei isso dele.
Ele usa sua camisa da sorte em todas as finais ou jogos decisivos desde 77. Usa com muito cuidado, e guarda como a relíquia que ela é. Ele pendura a bandeira de 77 na frente de casa sempre que o Corinthians é campeão, como um símbolo máximo da paixão que a bandeira representa, mas por apenas um dia. Depois ele a guarda muito bem dobrada na sua gaveta de meias.
A primeira vez em que entendi tudo isso, o que era ser corinthiano de verdade foi em 1986, assistindo a final do campeonato paulista junto com meu pai na TV de casa, com camisa da sorte e bandeira em punho.
Eu aprendi a cantar o hino pouco depois de aprender a falar. Aprendi o nome dos jogadores, aprendi que torcer é se apaixonar jogo a jogo. Mas naquela final em 86, no auge dos meus 8 anos, quando Viola fez aquele gol de carrinho contra o Guarani, na prorrogação, e eu abracei meu pai e nós corremos, gritamos e choramos como se sala de casa, fosse o gramado que consagrava o título. Naquele dia eu entendi a paixão do meu pai, e eu me apaixonei também, perdidamente, pelo Corinthians que eu via brilhando nos olhos dele.
Domingo foi um dos poucos jogos do Corinthians (especialmente dos decisivos) em que eu não pude assistir a partida ao lado dele. Uma pena, porque ao chegar em casa me cortou o caração vê-lo com os olhos inchados, emocionado como ele sempre fica, somente quando é preciso. Partiu meu coração muito mais ver meu pai triste do que a tristeza em si que me fazia segurar o choro desde a hora em que o jogo começou. Eu posso aguentar o que for pelo Corinthians, mas meu velho pai não merecia um desgosto desses. Não depois de 60 anos de paixão pelo clube.
Domingo ele não usou sua camisa da sorte, pois nem toda a sorte do mundo poderia ajudar o Corinthians.
Segunda feira, na ressaca do acontecido, vi meu pai curtindo a fossa como se houvesse um certo rancor escondido, uma desesperança no mundo.
Na terça vi meu pai mudado, mais forte e mais corinthiano, esperançoso e risonho.
E hoje, eu sou mais corinthiano do que nunca fui na vida. Hoje eu vejo em meu olhos, o Corinthians que brilha nos olhos do meu pai.
Obrigado pai.
Vai Corinthians !!!


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